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O difícil ajuste da economia depois da crise da covid-19

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Muito já foi dito sobre a tragédia da covid-19 e a necessidade de isolamento social nessa fase mais aguda da contaminação, absolutamente prioritária para se evitar o aumento da contaminação. O consenso sobre essa necessidade fará com que boa parte do mundo fique paralisada ao longo do segundo trimestre e parte do primeiro trimestre deste ano. O choque de oferta advindo dessa paralisia é inédito e faltam parâmetros para se identificar as consequências na economia.

Os dados diários de final de março e começo de abril que tenho visto mostram quedas da ordem de 80% contra o mesmo período do ano passado em diversos segmentos de atividade. É claro que alguns segmentos acabam por se sair melhor, como o agronegócio, varejo farmacêutico e de supermercados e e-commerce, especialmente de produtos mais básicos. Mas, certamente, não conseguem contrabalançar o forte efeito que se vê nos demais setores da economia. Vale dizer que, de certa forma, estávamos saindo ainda da crise de 2015/2016, com diversas empresas ainda em recuperação depois de anos de crescimento baixo e ainda pagando as dívidas feitas na saída daquela recessão. Muitas empresas foram pegas ainda enfraquecidas nessa crise.

Essa forte queda no nível de atividade tem feito o governo agir corretamente com as políticas fiscal e monetária. Em que pese atrasos normais nos pagamentos e na logística de entrega de recursos para as pessoas na economia informal, o sentido das medidas é positivo.

Entretanto, essa crise tem dois momentos distintos no que se refere às políticas de estímulo. Em um primeiro momento, os gastos serão concentrados para mitigar os efeitos do choque de oferta. Minhas estimativas são de um déficit primário no final do ano de 7% do PIB com dívida bruta de 87,5% do PIB, considerando uma queda de PIB de 4,7%. Muito provavelmente será mais do que isso e podemos chegar com a dívida bruta em números mais próximos de 88 ou 89% do PIB. Da mesma forma, o Banco Central tem agido com forte aumento de liquidez e quedas adicionais de juros, que podem ir para 3,25% na próxima reunião.

Mas, em um segundo momento, a governo deverá lidar com a recuperação da economia. O choque de demanda virá da falta de confiança e de um aumento forte na taxa de desemprego. Restaurar a economia nessas condições demandaria políticas fiscal e monetária que não teremos. Digamos que elas foram intensamente usadas na saída da recessão em 2008, no caso da política fiscal, e na de 2015/2016, no caso da política monetária. Agora, as duas estão sendo usadas acima dos seus limites para diminuir os piores efeitos da tragédia do novo coronavírus. O que terá disponível depois disso?

Muito pouco. Os juros já estarão muito baixos, podendo eventualmente haver possibilidade de queda adicional de spread bancário. Obviamente não haverá espaço fiscal para estímulos. Pelo contrário, o ajuste necessário não deverá ser feito apenas nos gastos. Com a regra do teto, o baixo nível de investimento e o provável aumento permanente de gastos com saúde, parte do ajuste terá que ser feito via aumento de impostos. Provavelmente não teremos aumento de taxação sobre bens e serviços. Mas aumento no imposto de renda deverá acontecer, com majoração da alíquota máxima de 27,5% para os empregos formais e aumento do imposto para os PJs.

A dificuldade disso será imensa, com essa decisão tendo que ser tomada em 2021, véspera de ano eleitoral. Entretanto, talvez não haja muita alternativa para corrigir a dívida criada este ano. Vale lembrar que os estudos mostram que em países com recessão ou crescimento baixo o aumento de imposto pode levar a piora da queda de atividade. Aumento de imposto de renda também terá o papel de, ao diminuir a renda disponível, afetar especialmente bens duráveis e imóveis. A construção civil, que poderia ter retomada ano que vem, teria dificuldades em um cenário de aumento de imposto de renda.

As dificuldades políticas de um governo Bolsonaro cada vez mais isolado podem prejudicar o andamento de reformas necessárias para o crescimento. Vamos estar às voltas em 2021 e 2022 com, novamente, uma agenda de ajuste macroeconômico intenso como foi em 2016 e 2017, com a ressalva de que agora estaremos em governo no final de mandato e politicamente enfraquecido. Haverá pouco espaço para reformas microeconômicas nesse período. A tributária, por exemplo, como discutida na PEC 45, poderia levar alguns estados à perda de arrecadação no curto prazo, mas com ganhos evidentes no longo prazo. Mas que estado iria querer perder arrecadação nesse cenário pós-covid19?

O que fazer? O governo precisa já se preparar para o pós-covid, com algum grupo formado entre Banco Central e Ministério da Economia, pensando medidas para serem aprovadas em 2021 e acelerar mais do que nunca o processo de concessões e privatizações. Haverá muita resistência neste caso porque será muito discutido a partir de agora o papel do Estado na economia, mas isso será terma do próximo artigo.

Fonte: Exame