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Na ONU, Bolsonaro faz apelo maior a investidores no discurso deste ano

A principal diferença observada na comparação do discurso do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), realizado na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (21), em relação a 2020 e 2019, foi o maior apelo aos investidores estrangeiros. Também chamou atenção que os discursos do presidente estão ficando cada vez mais breves. Se em 2019 ele falou durante pouco mais de 30 minutos, os dois últimos, de 2020 e 2021, não chegaram a 15 minutos. 

Neste ano, logo no início de sua fala, o presidente buscou proximidade com os americanos ao comparar políticas do seu governo com as do Norte. “Já são mais de US$ 6 bilhões em contratos privados para novas ferrovias. Introduzimos o sistema de autorizações ferroviárias, o que aproxima nosso modelo ao americano. Em poucos dias, recebemos 14 requerimentos de autorizações para novas ferrovias com quase US$ 15 bilhões de investimentos privados”. 

Mesmo admitindo que o país enfrenta desemprego e inflação, Bolsonaro não indicou planos para combatê-los e culpou medidas adotadas pelo Executivo estadual e municipal para conter o coronavírus como responsáveis pela crise econômica do país. Ao final de seu discurso, fez novamente um aceno aos investidores estrangeiros: “Como demonstrado, o Brasil vive novos tempos. Na economia, temos um dos melhores desempenhos entre os emergentes. Meu governo recuperou a credibilidade externa e, hoje, se apresenta como um dos melhores destinos para investimentos”. 

Segundo análise do cientista político Guilherme Casarões, professor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), a estratégia desse discurso foi passar uma imagem de que o país está retomando a economia tendo em vista a campanha eleitoral de 2022. “Bolsonaro entende que só a melhoria dos indicadores poderá ajudá-lo na campanha para a reeleição no ano que vem, de modo que a ênfase do discurso foi justamente os projetos de logística, infraestrutura e agricultura sustentável”, destacou o especialista.

Além do aceno aos investidores, Bolsonaro também fez sinalizações de alinhamento com sua base de apoio, principalmente quando culpou governadores pela crise econômica e citou no discurso deste ano os atos pró-governo realizados no dia 7 de Setembro. “Para a bolha bolsonarista, seus motes favoritos (liberdade, cloroquina, rejeição à vacina) seguem presentes”, completa Casarões. 

Há outros tópicos nos discursos deste ano e dos anos anteriores que se conectam, como apelo à suposta ameaça socialista, desinformação sobre dados da preservação da Amazônia e acolhimento de refugiados. 

Fantasma do socialismo

Em paralelo com os outros dois discursos, Bolsonaro voltou a apelar para uma suposta ameaça do socialismo, em referência aos governos petistas. Segundo ele, o Brasil estava “à beira do socialismo”, frase também empregada no discurso de 2019. 

Naquele ano, quando o presidente apresentou pela primeira vez seu governo ao mundo, ele dedicou parte significativa de sua fala atacando Venezuela e Cuba, com ênfase ao programa Mais Médicos, que trouxe profissionais de saúde cubanos para hospitais brasileiros. 

Amazônia

Sobre a Amazônia, Bolsonaro afirmou que “84% da floresta está intacta”, embora não tenha levado em consideração dados que contradizem essa informação. Segundo levantamento divulgado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em julho deste ano, o desmatamento nos últimos 11 meses é 51% maior que o registrado no período de agosto de 2019 a junho de 2020. Levando em conta apenas o acumulado deste ano, de janeiro a junho de 2021, a floresta perdeu área de 4.014 km², o que representa a maior taxa de desmatamento para um primeiro semestre registrado na última década, segundo o Imazon.

No discurso do ano passado, o presidente também afirmou que a floresta “é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, informações que já foram desmentidas por especialistas e pela imprensa. 

Mas foi em 2019 que o presidente mais se dedicou ao tema da Amazônia, quando fez longa defesa da soberania da região Amazônica, com ataques à imprensa internacional por noticiar sobre a devastação do bioma e do Pantanal. Naquele ano, Bolsonaro novamente culpou indígenas e comunidades locais pela prática das queimadas. “Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas. Vale ressaltar que existem também queimadas praticadas por índios e populações locais, como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência”, disse o presidente.

Refugiados

Diferente dos dois discursos anteriores, Bolsonaro incluiu os afegãos entre os refugiados acolhidos pelo Brasil, porém colocou critérios que repercutiram mal na imprensa nacional e internacional. Neste ano, ele declarou que serão concedidos vistos humanitários para “cristãos, mulheres, crianças e juízes afegãos”, excluindo muçulmanos, que são a maioria da população do Afeganistão, e outras religiões não cristãs.
Em 2020, o presidente destacou que o país estava recebendo refugiados venezuelanos que cruzaram a fronteira e se instalaram principalmente em Roraima. Na ocasião, o presidente afirmou que o país recebeu quase 400 mil venezuelanos, número que foi repetido no discurso da ONU deste ano.

Novo Itamaraty

Na avaliação do cientista político Guilherme Casarões, há influência  do novo chanceler do Ministério das Relações Internacionais, Carlos França, no discurso do presidente, pois buscou deixá-lo com “um verniz mais formal e menos populista”. Apesar disso, a repercussão do discurso na mídia internacional foi negativa, com destaque para contradições e negacionismo de Bolsonaro.

“No fim das contas, foi um discurso dentro do esperado. Bolsonaro recuou no tom e avançou na radicalização de suas posições, fazendo defesas (cifradas ou abertas) do tratamento que contribuiu para a catástrofe da pandemia no Brasil, culpando outros atores, relativizando as vacinas e exaltando atos antidemocráticos dentro de sua estranha concepção de democracia”, conclui o especialista. 

 

Fonte: O tempo

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