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Você já riu de si mesmo hoje ou quer virar um fanático corporativo?

Por Rodrigo Pinotti*

“A gente se f*, mas se diverte”. Essa frase já era dita muito antes do advento de livros de autoajuda corporativa com a palavra que começa com “f” no nome. Aparentemente, autores e editores descobriram (decidiram?) que as pessoas tendem a comprar livros com palavrões e ofensas no título, talvez para desopilar ou para se sentirem modernas e audazes, mais ou menos como naquele meme no qual o boneco joga uma papelada para cima dizendo “f* essa m*!”, apenas para juntar tudo no quadrinho seguinte dizendo “não, eu preciso disso para amanhã”.

Tergiversei, o que, embora seja uma saída frequente em reuniões no Teams quando você não está prestando atenção e alguém te faz uma pergunta, é um péssimo jeito de começar um artigo. Eu não gosto de generalizações, mas o ponto principal aqui é: as pessoas se levam a sério demais.

Consequentemente, rimos muito pouco de nós mesmos – ou esquecemos de nos divertir enquanto estamos trabalhando, o que no fim acaba tornando tudo mais difícil. Talvez seja este o motivo para que os livros que pedem para que você mande tudo se f* façam tanto sucesso.

É famosa uma fala do escritor israelense Amos Oz, morto em 2018, na qual ele diz que “eu nunca vi um fanático com senso de humor”. O fanatismo, que por definição é um comportamento disfuncional caracterizado por um fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer coisa ou tema, nos leva a perder o equilíbrio. Nesse sentido, é fácil pensar em fanatismo religioso (como o que o Talibã representa), ou em fanatismo político (como… melhor deixar pra lá). Mas nos esquecemos de que o fanático corporativo pode ser um tipo muito mais comum em nosso dia a dia.

Levar-se menos a sério não é tratar o trabalho com menos seriedade, ou com menos responsabilidade. É reconhecer que não estamos no centro de tudo, que nossas decisões e ações normalmente têm impactos limitados e que o mundo não vai acabar por conta de um erro. A vida fica um tanto mais leve desse jeito.

Conversei certa vez, anos atrás, com um publicitário que era responsável por uma campanha de um determinado suco. Após 10 minutos de explanação sobre a estratégia de engajamento e o posicionamento do propósito da marca (que era algo como ser o principal momento na vida dos consumidores, o centro do dia e o que daria sentido à existência das pessoas), eu realmente estava quase convencido de que aquele singelo produto iria promover o fim da pobreza e a Paz Mundial. Era só um suco – ótimo, por sinal. Aquilo estava indo longe demais.

Isso vale para o trabalho, mas também para a vida pessoal. Participo de um grupo sobre charutos no Facebook (duplo twist carpado cringe, eu sei) e recentemente fiz um comentário jocoso, mas inocente, sobre uma pergunta de um outro membro. Fui atacado sem dó nem piedade pelo autor da coisa, que não achou nenhuma graça (e tinha, eu juro). As pessoas realmente andam mais nervosas.

Esse meu amigo do Facebook provavelmente está mais propenso a ter um infarto do que quem riu com a piada. Uma pesquisa da Universidade de Maryland mostrou que pessoas com doenças do coração tinham uma chance 40% menor de rir em situações diversas em comparação com pessoas da mesma idade sem qualquer risco cardíaco.

Outro estudo, da Universidade de Oxford, mostrou que rir libera endorfina, que atua como analgésico natural e diminui eventuais dores no corpo – e, claro, sem dor é mais fácil ser feliz. Outro estudo mostrou ainda que ter bom humor faz com que a memória seja mais eficiente. De fato, é preciso ter uma boa memória para lembrar de todas as piadas ruins que podem ser contadas a cada situação.

Todo mundo já escorregou e caiu na rua, todo mundo já cometeu alguma gafe feia no trabalho, todo mundo pode encontrar graça em algo, em vez de vergonha ou raiva. É preciso ser um Talibã corporativo para se lembrar de uma situação embaraçosa do passado e não rir a respeito. Mais humor, por favor. No fim das contas, a gente se f*, mas se diverte.

*Rodrigo Pinotti é sócio-diretor da FSB Comunicação

**Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a EXAME. O texto não reflete necessariamente a opinião da EXAME.

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Fonte: Exame

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