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“Vai ser difícil retomar as rédeas depois da crise”, diz Bracher, do Itaú

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Trabalhando há quase 39 anos no mercado bancário, sendo que os três últimos à frente do Itaú Unibanco, Candido Bracher já vivenciou muitas crises econômicas. Passou pela turbulência da dívida externa, pelas inúmeras tentativas de estabilização da moeda, pelo apagão energético até o recente quebra-quebra devido aos títulos podres hipotecários nos Estados Unidos.

“A crise atual sempre parece ser a mais difícil, mas essa especificamente é mais complexa. Parece uma guerra com a diferença que os meios de produção não serão destruídos”, afirmou o executivo, durante uma transmissão ao vivo pela internet, nesta sexta-feira. A conversa foi promovida pelo Credit Suisse e contou também com a presença dos presidentes do Santander e Bradesco, Sergio Rial e Octavio de Lazari, respectivamente.

Os cálculos do Itaú mostram que o produto interno bruto do Brasil poderá cair algo entre 0,5% e 6,5% em 2020, dependendo da extensão do isolamento social. “Hoje, ao que tudo indica, parece que vamos ficar na metade superior desse espectro”, disse.

“Será a maior queda do PIB de qualquer época. No entanto, a situação do Brasil atualmente é muito melhor do que anos atrás. Dificilmente o país passaria por essa crise sem entrar em moratória se tivesse a dependência externa igual a dos anos 2000 a 2010. Além disso, se tivéssemos juros de 14% ao ano e as vendas caíssem pela metade, o efeito seria destruidor para todas as empresas.”

Segundo Bracher, é importante não se ater apenas à estimativa da relação dívida e PIB. O Congresso e o Planalto precisam traçar um plano, uma grande concertação para dar segurança a todos de que serão impostas medidas de austeridade finda a crise. 

Aliás, por falar em conciliação, os bancos têm tentado frear ou impedir o quebra-quebra, principalmente de pequenas e médias companhias que não têm tanta liquidez à disposição quanto as grandes empresas. “Por isso, a linha de financiamento da folha de pagamentos foi engenhosa. Mas acho que deveria ser estendida para companhias acima de 10 milhões de reais de faturamento”, comenta. “A atividade financeira vai mudar. Vamos [os bancos] passar alguns anos com o propósito de recuperar empresas.”

Outra mudança que deve perdurar depois da pandemia é a forma como o Itaú tem gerenciado as áreas essenciais no dia a dia. Segundo Bracher, por causa do isolamento social, as funções foram delegadas, e ele, como presidente, tem ficado mais focado em questões urgentes, como a situação das agência. De resto, ele tem uma reunião a cada duas semanas com cada área para saber como está o andamento.

“Vai ser difícil retomar as rédeas depois da crise”, disse rindo. “O banco funciona bem com as tarefas sendo delegadas para os times. Vamos poder racionalizar o funcionamento [do banco]. Eu tenho cuidado mais da imagem e de questões regulatórias”

Essa mudança no gerenciamento do banco acontece às vésperas da saída do seu presidente: 2020 será o último ano completo do Bracher à frente do banco. Em 2021, ele deixa a presidência por causa da regra que impõe limite de idade de 62 anos para a alta direção. Cabe aos acionistas, portanto, encontrar três candidatos, prepará-los para assumir o cargo e escolher o substituto.

O problema é que é fazer tudo isso a metros ou até quilômetros de distância e especialmente quando o foco do banco, em meio à pandemia, é a operação e não a sucessão. O que se pode garantir é que será um ano histórico para Bracher dentre os quase 39 anos dedicados ao mercado bancário.

Fonte: Exame