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Stuhlberger: Não há crise que nunca acabe, e empresas boas permanecem

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“Não há crise que não acabe. Esta também vai acabar.” Em mais de quatro décadas de atuação no mercado financeiro, Luis Stuhlberger, 63, o lendário fundador da gestora de investimentos Verde, já viveu diversas turbulências. Como outras, a atual, provocada pelo novo coronavírus, também está apresentando oportunidades para os investidores, disse o executivo durante conversa ao vivo com outros especialistas promovida pela corretora XP Investimentos.

“Costumo dizer que a única coisa que destrói permanentemente o mundo é a guerra. Tem gente que diz que estamos passando por uma guerra agora. Mas é diferente: numa guerra tradicional, há um grupo de páises tentando conquistar e destruir outros. Agora, o otimismo vem do fato de que todos os países estão juntos em guerra contra um inimigo comum, que é esse vírus”, afirmou o gestor.

A forte queda da bolsa de valores brasileira neste ínicio de 2020 – o Ibovespa, principal índice acionário local, chegou a perder 47% entre seu pico histórico, em 23 de janeiro, e o patamar mínimo do ano, em 23 de março – deu à Verde a oportunidade comprar ações de empresas de qualidade a preços atrativos. Boas companhias são, para a gestora, as que têm condições de sobreviver bem a esta crise e às inevitáveis próximas.

Para Stuhlberger, no longo prazo, os ativos de maior valor serão as ações e os títulos de dívida das boas empresas, que se reinventam e continuam crescendo mesmo em tempos ruins. Essas valem mais, até, do que o próprio dinheiro em espécie: como os governos de todo o mundo estão injetando recursos nos mercados para tentar mitigar os efeitos da crise, as moedas vão perdendo valor.

Além disso, as dívidas nacionais vão ficando impagáveis por causa do envelhecimento da população mundial e da necessidade crescente de aumento dos gastos com Previdência Social. “Se vai ser daqui a 10 ou 20 anos, não sei. Mas, nesse dia, a pior coisa a ter é dinheiro. Chamo esse momento de grande Plano Collor mundial. Você vai acordar e ver que o seu dinheiro não vale nada, não dá para sacar do banco”, disse o gestor. “Sempre me perguntar em que investir neste momento: ouro, imóveis, Bitcoin… Nos últimos 2.000 anos, houve 22 momentos em que o dinheiro virou pó. Já estamos há 120 anos sem ver esse fenômeno – exceto o Japão e a Alemanha, por causa da Segunda Guerra Mundial. Quando acontece essa perda de valor, as ações são as grandes vencedoras.”

Nas últimas semanas, a Verde reforçou sua posição em empresas americanas, porque o governo dos Estados Unidos é o que mais dispõe de ferramentas para estimular a economia. Também comprou papeis de companhias brasileiras que caíram demais em meio ao pânico do mercado: BR Distribuidora, Localiza – porque acredita que o mercado de aluguel de carros vai acabar se recuperando – e Magazine Luiza, além da Equatorial Energia, que já era uma das suas favoritas.

“Uma empresa pode perder seu lucro em 6 meses ou um ano, mas o seu valor está no longo prazo”, disse Luiz Parreiras, sócio da Verde que também participou da live hoje. A gestora tem ações de empresas de saúde como a Notre Dame Intrmédica, a SulAmérica e a Hapvida. A covid-19 tem aumentado a demanda por alguns serviços médicos, mas todos os processos eletivos foram cancelados, reduzindo os gastos das administradoras de planos de saúde, na opinião da Verde.

O fundador da gestora continua otimista com o Brasil. “Levando em consideração o que aconteceu nos últimos três anos, as reformas feitas, o juro e a inflação baixos, eu estava muito otimista. Esta crise levou a desafios fiscais e de governabilidade que tornam o cenário mais incerto. Não deixei de estar otimista, mas o risco aumentou”, disse Stuhlberger.

Na opinião de Stuhlberger, o ministério da Economia e o Congresso Nacional tomaram boas medidas para administrar a crise causada pelo coronavírus. Mas o país vai acabar perdendo nos próximos anos, com a queda da receita de impostos e o aumento dos gastos para apoiar cidadãos e empresas, o equivalente à economia proporcionada pela reforma da Previdência.

O fundador da Verde contou que o maior erro que a gestora cometeu durante  pandemia foi achar que o coronavírus teria uma taxa de contágio menor em países quentes com o Brasil. A tese surgiu da observação de que em Cingapura, na Tailândia e nas Filipinas, nações de temperatura mais alta, a disseminação foi menor do que na China. “Agora se sabe que o calor equivale a 20% de lockdown, por isso o Brasil está melhor do que a Europa. Mesmo tendo um time preparado, nem sempre se consegue decidir corretamente. Foi a melhor decisão que conseguimos tomar naquele momento, mas não posso negar que tenho essa frustração”, diz o gestor.

A avaliação errada fez com que a Verde começasse a comprar ações na B3 quando os papeis ainda cairiam mais. “Porém, entrar na entrada não quer dizer que vai errar para sempre”, disse Parreiras. “Aumentamos a nossa posição sem achar que somos mais inteligentes do que o movimento de mercado. Definimos um plano e seguimos à risca, mesmo nos momentos mais dolorosos de queda. Agora que o mercado está se recuperando, começamos a colher os frutos dessa estratégia.”

A recomendação de Stuhlberger agora é que a crise seja levada a sério. “Vejo gente dizendo que em setembro vai ter jogo de futebol, show. Mas não é bom ficar com a expectativa de que o isolamento vai terminar muito antes e no final ficar estressado”, disse o investidor. “É melhor administrar este período estudando. Sejamos pacientes. É tempo de refletir e se reinventar.”

Fonte: Exame

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