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Sem políticas, Brasil vê empresas puxando a fila de reduções de emissões de CO2

Enquanto o Brasil ainda engatinha em políticas concretas de enfrentamento às mudanças do clima, empresas que têm plantas produtivas no país puxam a fila de ações rumo à descarbonização da economia. Mesmo tendo ratificado o Acordo de Paris, em que se comprometeu a neutralizar 100% das emissões de gases de efeito estufa até 2050, o Brasil ainda está longe da marca e sem muito a celebrar neste domingo (5) – Dia Mundial do Meio Ambiente. 

O último balanço do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg) indicou mais de 39 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) emitidas na atmosfera entre 1990 e 2020. Em 2020, o número ultrapassou a barreira de 2 bilhões de toneladas. 

Por outro lado, o relatório Normais Climatológicas, publicado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em 2021, apontou crescimento nos números de episódios de chuva entre 80 e 100 milímetros em São Paulo entre 1991 e 2020. O mesmo documento identificou, em Belo Horizonte, um aumento de 1.7ºC na temperatura média em Belo Horizonte. 

Na avaliação do professor da Fundação Dom Cabral e superintendente da Fundação Amazônia Legal, Virgílio Viana, a situação atual indica ainda um caminho longo em direção às metas do Acordo de Paris revistos na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima realizada em Glasgow no ano passado. 

“O Brasil está ficando retardatário na discussão. Infelizmente, ao contrário do que deveria ser feito, o Brasil tem buscado reduzir impostos para combustíveis fósseis, tem incentivado o uso de usinas térmicas e não dado incentivos suficientes para sistemas de transportes baseados em energia elétrica”, afirma o professor. 

Ele lembra que a falta de políticas no setor impacta diretamente a economia. “Se o país continuar nesta posição na agenda climática, as empresas vão sofrer dificuldades crescentes de acesso aos mercados com seus produtos e também a financiamentos. O docente ainda observa um papel importante das empresas na agenda climática, principalmente quando os governos “por diversas razões não estão fazendo o necessário”.

Um problema destacado pelo especialista é o aumento recorrente, desde 2018, nos índices de desmatamento na Amazônia. Ao final de 2021, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área total do bioma queimada chegou a 13.235 km². 

“Estamos em trajetória de aumento de 2.7ºC da temperatura do planeta, quando a Ciência nos aponta que o limite é 1,5ºC. Nós temos desastres como esses de Petrópolis, Recife, e todos estão associados às mudanças do clima. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos é previsto pela ciência como consequência das mudanças do clima”, assinala Virgilio. 

Neutralização na siderurgia 

E a preocupação com o futuro das atividades é um dos fatores que levam as empresas a investir em descarbonização das produções e inserir a sustentabilidade em meio aos processos. A Aperam South America, maior produtora de aço inox da América Latina, afirma já ter alcançado a neutralização das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera. 

De acordo com o CEO da companhia na América do Sul, Frederico Ayres, o processo começou ainda em 2004 com o plantio de eucaliptos que permitiram, em 2011, a transição energética do uso do coque, espécie de combustível usado na siderurgia, para o carvão vegetal e o uso de alto fornos. 

Ayres cita que em 2021, a empresa emitiu 475 mil toneladas de CO2, mas conseguiu remover os gases emitidos quase na totalidade. Em 2020, o balanço havia sido 492 mil toneladas de emissões, para 33 mil toneladas de reversões. “Produzir ferro-gusa por meio de carvão vegetal é uma tecnologia dominada. O diferencial é ter isso em escala e de forma sustentável”, afirma o executivo. 

O CEO lembra que há, atualmente, um paralelo grande em relação ao passado, com a eliminação de motosserras e uso de queimadores de gases para evitar emissão de gás metano. Até 2030, a companhia tem a meta de reduzir o consumo de energia e gás natural em 11%, de emissões de poeira em 70% e do consumo de água em 40%. 

Reciclagem no caminho 

Outra gigante da siderurgia, a Gerdau, aposta na reciclagem de aço para chegar à descarbonização. A empresa, que é a maior recicladora de aço metálico da América Latina, tem 73% da produção utilizando material reutilizado. Principal exemplo do trabalho feito pela empresa é o fornecimento de 200 toneladas de aço para a construção do Palco Mundo do Rock in Rio

A gerente geral de Meio Ambiente da companhia, Cenira de Moura, explicou que a reciclagem de uma tonelada de sucata evita que 1,5 tonelada CO2 sejam dispensados na atmosfera. Até 2031, o objetivo é reduzir as emissões de carbono de 0,93 toneladas de carbono para 0.83. 

“Nós temos essa ambição de chegar a realmente ser carbono neutro em 2050, mas precisamos ter parceiros disponíveis que desenvolvam conosco políticas públicas que nos viabilizem tecnologias disruptivas”, cita ela ao exemplificar o uso de hidrogênio, por exemplo, como combustível na siderurgia.

Outra frente de trabalho é na ampliação da base florestal. Em Minas, por exemplo, a empresa fará um aporte de R$ 6 bilhões e parte do montante vai ser aplicado na ampliação de 20% entre os 250 mil hectares de florestas. “Quem não correr atrás agora para levar à frente a agenda de sustentabilidade perde a oportunidade de manter a empresa sustentável em todos os sentidos, inclusive financeiro”, acrescentou. 

Sustentabilidade na cerveja

A Ambev lançou, nesta semana, uma campanha para acelerar a adesão de garrafas retornáveis para ampliar os trabalhos de economia circular da empresa. Uma das ações será o desconto, de até R$ 30, em pedidos feitos no aplicativo Zé Delivery com produtos retornáveis. 

“As embalagens retornáveis são uma grande fortaleza da companhia, representando metade do volume de vendas. Além da diminuição significativa de resíduos para o meio ambiente e, consequentemente, menor impacto, nós também reduzimos o uso de recursos naturais”, justifica Karina Turci, gerente de Sustentabilidade em Embalagens da Ambev.

Até 2025, a empresa, responsável por embalar marcas como Brahma, Skol, Original e Guaraná Antártica, planeja ter 100% dos produtos em embalagens retornáveis ou feitas com conteúdo reciclado. “Recentemente, anunciamos que Guaraná Antarctica é o primeiro refrigerante a ter pet 100% reciclado em suas embalagens. Além dele, Colorado Caquinhos foi a nossa primeira cerveja a ter a embalagem feita com vidro 100% reciclado”, exemplificou. 

Questionamentos 

A reportagem procurou os Ministérios do Meio Ambiente e da Economia para saber as políticas do país para descarbonização da economia e para adaptação e prevenção às mudanças climáticas. Entretanto, nenhum posicionamento foi enviado. Em um comunicado publicado no site da pasta ambiental, o governo federal destaca a publicação do decreto 11.075/ 2022.

“O decreto traz o conceito de crédito de metano, a possibilidade do registro da pegada de carbono de processos e atividades, o carbono de vegetação nativa – que chega a 280 milhões de hectares em propriedades rurais, o carbono do solo – fixado durante o processo produtivo, e o carbono azul – presente nas áreas marinhas e fluviais”, diz. 

Fonte: O tempo

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