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Raízen: IPO larga “já vendido” e estreia otimista alcançaria R$ 97 bi

A Raízen, a sucroalcooleira dos grupos Cosan e Shell, colocou na rua sua oferta pública inicial (IPO). Com isso, garante sua estreia na B3 antes do início das férias no Hemisfério Norte. A companhia se apresenta ao mercado avaliada, antes da captação com a oferta de ações, entre R$ 67,5 bilhões e R$ 86,5 bilhões, ou seja, pre-money.

A empresa desfilará — agora oficialmente — aos investidores dentro do ponto que a Cosan entendia estar seu valor quando o plano de sua listagem na B3 se tornou público.  Falava-se, no início,  em intervalos entre R$ 70 bilhões e 90 bilhões e, mais recentemente, os comentários subiram para algo entre R$ 80 bilhões e R$ 100 bilhões.

A empresa chega praticamente já vendida. Fontes de mercado apontam que o livro da oferta está praticamente coberto. Agora, é ver o extra que vem. Os compradores, como era o plano desde o começo, são principalmente estrangeiros. A recente alta do petróleo, é claro, ajudou a compor o ambiente favorável à transação.

A faixa de preços sugerida para a colocação — integralmente primária e em preferenciais — vai de R$ 7,40 a R$ 9,50 por ação, após rodar o mundo e o Brasil como uma empresa cuja commodity oficial é o carbono.

A Raízen, uma das cinco maiores empresas do Brasil, com receita líquida superior a R$ 115 bilhões ao ano, chegará à B3 como um negócio cujo valor agregado vendido aos investidores está muito além da produção de etanol e da distribuição de combustíveis. Está na neutralização do carbono, que durante a pandemia se consolidou como inimigo número 1 do mundo, temporariamente atrás apenas do vírus Sars-Cov-2.

A empresa brasileira é a melhor posicionada globalmente para explorar o etanol de segunda geração, produzido a partir da celulose da cana-de-açúcar (o rejeito) e não da cana, propriamente. Já existe uma produção pequena em andamento e o que faz o olho do investidor brilhar é justamente o ganho de escala dessa tecnologia. Mas as dúvidas quanto à concretização desse plano são “o desconto” entre o que o mercado quer pagar frente ao que Cosan e Shell julgam que já vale a companhia. Vale dizer que, além da produção, a empresa domina também a distribuição, uma vez que opera a bandeira de postos Shell no Brasil.

A produção a partir do refugo da cana é quase a única que interessa aos exigentes investidores europeus, no quesito sustentabilidade. Isso porque não compete com a produção de alimentos. Parte dos entusiastas da energia limpa do futuro torce o nariz para biocombustíveis que possam concorrer com o abastecimento global de alimentos, como aqueles vindos do milho, da canola ou da soja.

Quem vale quanto?

Com o IPO de Raízen, ainda há espaço de valorização em Cosan, segundo analistas. O conglomerado construído pelo empresário Rubens Ometto vale hoje na B3 cerca de R$ 50 bilhões. A ação subiu de cerca de R$ 20 para a casa dos R$ 28, de março até agora. Com a listagem de Raízen, contudo, deveria valer entre R$ 55 bilhões e 65 bilhões — ou seja, existe um potencial ganho escondido de 10% a 30% se o IPO de Raízen sair tal e qual dentro dos parâmetros planejados. Isso já incluído na conta um desconto de holing de 20% (sobre a soma das partes, Raízen, Moove, Compass e Rumo Logística).

Considerando sucesso absoluto na venda dos papéis, ou seja, preço máximo e venda total (incluindo lotes adicional e suplementar), a Raízen pode estrear na B3 avaliada em quase R$ 97 bilhões — e, no mínimo, em quase R$ 75 bilhões.

Apesar de ter alcançado a estimativa que inicialmente a Cosan havia sugerido ao mercado, a Shell — ao que tudo indica — achou pouco. Durante as inteirações mais recentes, a Raízen se colocou como uma empresa que poderia valer mais de R$ 100 bilhões já e R$ 150 bilhões em 2021, de acordo com alguns investidores ouvidos pelo EXAME IN.

A frustração — não chega a ser insatisfação — da Shell com a avaliação é percebida pelo tamanho da oferta. O plano da Raízen é captar entre R$ 6 bilhões (preço mínimo e só oferta base) e R$ 10,4 bilhões (preço máximo e venda integral das ações e mais extras). A sócia holandesa bateu o pé em dois momentos relevantes: não aceitou adesão ao Novo Mercado — aos minoritários, apenas ações preferenciais — e não topou diluição extra, com o preço ligeiramente fora do que entendia ser justo.

Mas a Shell, é sábido, nunca foi a maior entusiasta desse movimento de abertura de capital. Ainda que para a Raízen seja um movimento estratégico muito relevante, alcançar a independência de seus acionistas para captação de recursos, os limites da sócia internacional são fáceis de serem compreendidos. A Raízen está hoje, em termos de neutralização de carbono, onde a Shell vai se esforçar para estar em 2050.

O que a Raízen evita por ano em emissão de carbono — 5,2 milhões de toneladas — é mais do que as 3,7 milhões de toneladas que a Tesla já evitou em 11 anos. Além disso, equivale a 2,5 milhões de carros a menos em circulação.

Por ser um IPO “livre de carbono”, ou de baixíssimo impacto, a Raízen concentrou os esforços de colocação da oferta fora do Brasil. Mas isso foi na prévia do road-show. Agora é que são elas. No Brasil, pelo menos, os investidores indicavam que uma avaliação aceitável estava em torno de R$ 70 bilhões. Por aqui, o mercado está acostumado a enxergar a operação como uma “usina” de açúcar e álcool. Mas a empresa se apresentou como muito mais.

A companhia mais comparável à Raízen — em parte do negócio — e usada nas conversas com investidores é a finlandesa Neste, avaliada em 42 bilhões de euros na bolsa de Helsinque, e é uma das queridinhas do “carbon free”. A empresa, cuja receita líquida foi de quase 12 bilhões de euros no ano passado e o Ebitda, de 1,5 bilhão de euros, produz 3 bilhões de litros de diesel verde. É negociada, portanto, a bem mais do que 20 vezes Ebitda.

A Raízen tem reforçado ter condições, sem a necessidade de nenhum hectare adicional, de ampliar a produção em mais de 3 bilhões de litros (2 bilhões em etanol de segunda geração e mais o equivalente a 1 bilhão de litros em biogás), ou uma Neste inteira. Esse adicional soma-se a sua produção atual, que foi de 2,5 bilhões de litros na safra passada. Sem esses extras, no ano-safra terminado em março, o Ebitda da companhia foi de R$ 6,6 bilhões. Um múltiplo de 20 vezes aqui aplicado levaria o negócio a mais de R$ 115 bilhões — sem aumento de produtividade e sem Biosev, apenas sobre 2021.

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Fonte: Exame

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