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Quando sinto que o RH não me entende

A sensação de incompreensão parece típica da juventude. No último artigo, abordamos um pouco essa questão de uma nova mentalidade traduzida na figura dos mais novos e como esse fator é colocado como conflito, em vez de propor um encontro entre as gerações.

Estamos acostumados a associar o debate geracional ao conflito e o conflito, por sua vez, aos jovens. Afinal, seriam eles os rebeldes sem causa, aqueles que sentem que o mundo não os entende de fato, certo? Na verdade, não é bem assim. Pelo menos não no mundo corporativo.

Apesar da clássica cena de filme em que um filho ou uma filha acusa os pais de não o entender, no ambiente de trabalho essa queixa não é só dos mais novos. Na edição recém-publicada da pesquisa Carreira dos Sonhos, do Grupo Cia de Talentos, identificamos um dado curioso: as diferentes camadas da organização não se sentem compreendidas pela área de gestão de pessoas.

Diante da afirmação “o RH entende o que pessoas como eu precisam e desejam”, apenas 32% dos jovens concordaram com ela, 23% profissionais em cargos de média gestão e 39% da alta liderança.

Trocando em miúdos: os colaboradores não se sentem atendidos pela área de gestão de pessoas. É aquele já conhecido descompasso entre as necessidades reais e as práticas de RH, que muitas vezes são desenhadas com bastante dedicação, mas um pouco descoladas da realidade.

Só que, talvez, esse resultado também tenha a ver com uma tendência de mercado: a hiperpersonalização.

Na era dos dados, nos acostumamos com o escambo de informações por um serviço ou produto melhor. Não só isso: por uma entrega mais customizada e uma experiência de consumidor mais alinhada ao meu perfil. Customer centric, customer success e user experience são todos termos que foram incorporados ao novo glossário dos negócios.

Da mesma forma, os colaboradores — que, não sei se você se lembra, já foram chamados de “clientes internos” — anseiam por uma experiência única na sua empresa. Ninguém quer ser tratado como um número, ninguém quer ser resumido a um rótulo de “Geração Z” ou “boomers” e, então, ser tratado como um típico integrante desse grupo.

As pessoas têm desejos individuais, só que não obrigatoriamente vão ser atendidos pelo RH porque, bem, mesmo a personalização tem seus limites — inclusive a do cliente externo. Então, como faz?

Antes de colocar o problema na conta dos colaboradores e encerrar a discussão com um taxativo “ninguém nunca está satisfeito”, avalie o quanto os gestores de pessoas — lembrando que o RH não é o único responsável por isso — conhecem os colaboradores.

Será que as práticas corporativas refletem a realidade daquela empresa ou é só um conjunto de copy/paste de modismos? Quanto da rotina de gestão de RH é dedicada para realmente conhecer as pessoas? Como são medidas as ações de RH? Aliás, elas são medidas?

Nos últimos tempos, a área de Recursos Humanos foi ainda mais demandada porque parte da sobrevivência dos negócios dependia de uma adaptação estratégica dos profissionais ao “novo normal”.

E nem preciso dizer que as empresas que tiveram melhor desempenho nessa empreitada foram aquelas que, dentre outros fatores, conheciam bem as suas pessoas. Mais do que isso: buscavam conhecer continuamente, medindo percepções, necessidades, dificuldades, sucessos com ferramentas mais arrojadas como pesquisas pulses e outras mais conhecidas, como uma boa comunicação.

E é aí, na comunicação, que mora um dos segredos para mudar o cenário em que boa parte da empresa sente que não é compreendido. Colher informações e analisá-las é fundamental para fazer uma gestão de pessoas estratégica baseada em dados, e não em achismos. Mas guardar o resultado só para você talvez esteja impedindo que mais pessoas tenham uma visão mais macro sobre o RH.

Como expliquei acima, dificilmente conseguiremos atender cada um dos anseios de cada um dos colaboradores nesse nível individualizado e os colaboradores são capazes de compreender isso.

Desde que isso seja comunicado e desde que, antes de apresentar os limites de uma gestão hiperpersonalizada, as pessoas sintam que tiveram a chance de se expressar, que são genuinamente escutadas e que existe um interesse em conhecê-las.

E já adianto que essa sensação de ter suas ideias ouvidas e valorizadas, olha, também anda em falta em alguns grupos nas empresas. Mas essa é uma conversa para outro artigo.

Fonte: Exame