Política
Por que Rondônia deu vitória total a Flávio Bolsonaro, mas teve maior salto de votos para Lula no Norte?
Rondônia foi o único estado dos país em que Flávio Bolsonaro (PL) venceu em todos os municípios nas eleições presidenciais de 2026 em ambos os turnos. Por outro lado, também teve o maior crescimento percentual na região Norte em número de votos recebidos por Lula (PT): foram 43.779 votos a mais no segundo turno, um crescimento de 17,47% em comparação com o primeiro.
O cenário é o mesmo que as eleições presidenciais de 2018 e 2022, quando Jair Bolsonaro (PL) era candidato e também conseguiu a vitória exclusiva em todas as cidades de Rondônia em ambos os turnos das duas disputas.
Esses dados fazem parte de um estudo feito pelos cientistas João Paulo Viana e Marcio Carlomagno, publicado em 2024 na revista Teoria e Cultura, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Segundo a pesquisa, que usa dados do TSE, Bolsonaro venceu, em média, em 97% das urnas rondonienses nos dois pleitos. Em 40% dos municípios, o ex-presidente não perdeu em nenhuma seção eleitoral nos quatro turnos analisados.
A pesquisa aponta uma série de fatores, como influência histórica militar e força do agronegócio na economia local e um forte sentimento antipetista, que moldaram o conservadorismo rondoniense e impulsionaram a radicalização da direita no estado.
Além de dar vitória para Flávio Bolsonaro em todos os municípios, Rondônia também elegeu, em primeiro turno, um governador do PL, Marcos Rogério, e dois senadores do mesmo partido, Dr. Fernando Máximo e Bruno Scheid.
Mas, o que explica o estado repetir a votação expressiva para Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai, e ainda assim ter o maior aumento percentual de votos para Lula da região Norte?
De acordo com João Paulo Viana, dois fatores podem ajudar a explicar o aumento da votação de Lula no estado. O primeiro é o lançamento de um candidato do PT ao governo de Rondônia, o que, segundo ele, não ocorreu nas disputas presidenciais de 2018 e 2022.
“Certamente contribuiu para mobilizar as bases locais da legenda e simpatizantes”, avaliou o professor.
O segundo fator apontado pelo cientista político é a mobilização nacional de grupos progressistas durante o segundo turno. Na avaliação dele, o engajamento também teve impacto em Rondônia, onde o conservadorismo tem forte presença.
“Diante de um quadro altamente radicalizado à direita em Rondônia, esse engajamento nacional pró-Lula parece ter influenciado a militância petista e grupos sociais específicos a participarem ativamente, irem às ruas e declararem apoio ao candidato do PT”, afirmou.
Viana também levanta a hipótese de que esse moviemnto fez diferença porque parte dos eleitores que não se identificam com o campo conservador pode ter receio de demonstrar suas posições políticas publicamente.
“Num contexto de radicalização conservadora, quando não há incentivos à mobilização, é possível que os cidadãos que pensam diferente tenham forte receio de se posicionar”, disse.
O professor cita possíveis consequências desse receio, como violência política e sanções no ambiente de trabalho ou no convívio social. Para ele, o segundo turno foi marcado por uma mobilização que alcançou até mesmo regiões mais conservadoras.
“Diante de um quadro altamente radicalizado à direita em Rondônia, esse engajamento nacional pró-Lula parece ter influenciado a militância petista e grupos sociais específicos”, concluiu.
Números da eleição
No primeiro turno, Lula teve 250.667 votos em Rondônia. No segundo, o número subiu para 294.446. Os dados têm como base os resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A variação foi a maior entre os sete estados do Norte. Em números absolutos, porém, o Pará teve o maior aumento da região, com 263.212 votos a mais para o petista entre os dois turnos.
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