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Por que ele? Por que agora? O que significa chegada de Ronaldo ao Cruzeiro

Após alguns anos de discussão, um novo modelo para os clubes-empresa no futebol brasileiro começa de vez a sair do papel. O Cruzeiro se tornou neste sábado, 18, o primeiro time de futebol a ter uma negociação no modelo da chamada Sociedade Anônima do Futebol (SAF), com a venda de 90% das ações em uma transação liderada pelo ex-atacante Ronaldo Luís Nazário de Lima, o “Fenômeno”.

“Bem-vindo, Ronaldo”, escreveu o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, em uma imagem ao lado do ex-jogador após o negócio ser fechado neste fim de semana.

A venda vem em um dos piores momentos da história do Cruzeiro, com dívidas que chegam a 1 bilhão de reais e resultados pífios no futebol. Mas acontece, também, durante uma reviravolta nas regulações possíveis para os times, com a lei que autoriza as SAFs aprovada em julho no Congresso.

O modelo permite que investidores privados comprem parte da nova Sociedade Anônima criada no clube e pode se tornar, na teoria, uma porta de entrada para novos recursos – como no caso de Ronaldo.

O interesse do ex-atacante pelo Cruzeiro tem parte pessoal e parte de negócios. Foi no clube de Belo Horizonte que Ronaldo se projetou para o futebol brasileiro e, depois, internacional, nos anos 1990.

Além disso, há potencial para que um time de história como a Raposa possa, com algumas mudanças de rumo, usar sua enorme torcida e bases de dados para encontrar novas fontes de renda. Após dois anos na série B, a receita do clube caiu pela metade, em pouco mais de 120 milhões de reais em 2020.

Para Amir Somoggi, da consultoria especializada em marketing esportivo Sports Value, “faz todo sentido” ter Ronaldo como o primeiro investidor deste novo modelo.

“É mais fácil uma pessoa do Brasil neste momento acreditar num projeto de um clube tão endividado. É muito difícil para um árabe, um russo, um chinês, entender o Cruzeiro e sua dimensão. O Ronaldo entende”, diz. 

O consultor avalia que o Cruzeiro tem muito potencial para crescer em receitas, tendo boa base de torcedores jovens e de mulheres, dois grupos cobiçados pelo marketing dos clubes.

Apesar da má fase recente, muitos jovens da geração de cerca de 20 anos passaram a torcer para o clube com os títulos dos anos 2010, situação parecida à do São Paulo, aponta Somoggi.

Torcida do Cruzeiro em 2019, antes da pandemia: clube amarga seu segundo ano na série B do BrasileirãoVinnicius Silva/Cruzeiro/Divulgação

Para os cruzeirenses, no curto prazo, o ponto mais importante é que o acordo com a empresa de Ronaldo, a Tara Sports, prevê investimentos de 400 milhões de reais nos próximos anos.

A grande esperança é de que o novo formato abra espaço para investimentos capazes de fazer o clube deixar para trás a má fase. O Cruzeiro foi rebaixado no Campeonato Brasileiro em 2019, e nas duas temporadas em que esteve na segunda divisão, passou longe da zona do acesso à série A. Neste ano, terminou somente na 14ª colocação.

“O investimento traz um oxigênio importante porque é para a SAF, isto é, tem uma distinção entre o que é SAF e o que é clube”, explica Vinicius Lordello, diretor de comunicação do Cruzeiro e autor do blog Esporte Executivo na EXAME. “Não vão ser 400 milhões só para pagar dívida.”

Ronaldo já teve outra experiência na aquisição de clubes de futebol, quando se tornou sócio majoritário e dirigente do Real Valladolid, na Espanha, em 2018. O time terminou rebaixado para a segunda divisão três anos depois.

A aprovação do negócio com Ronaldo veio logo após a assembleia do Cruzeiro, na sexta-feira, 17, dar aval para vender 90% das ações da SAF do clube. O Cruzeiro ainda tem a fatia restante, de 10%.

No modelo, também poderiam ser colocadas à venda fatias menores, como pouco mais de 50%, mas a assembleia no Cruzeiro preferiu vender parcela maior da SAF.

O setor financeiro tem altas expectativas sobre o sucesso do modelo e as oportunidades de investimento. A nova lei de clubes-empresa pode se mostrar “transformacional na história do esporte brasileiro” na visão de José Berenguer, presidente da XP, que intermediou a negociação.

Outros clubes podem seguir o mesmo caminho, como Botafogo e os rivais paranaenses Coritiba e Athletico. No geral, os clubes brasileiros funcionam em modelo de associação, não como empresa. Ao mesmo tempo, o modelo das SAFs é diferente do tipo de clube-empresa visto em nomes como Red Bull Bragantino, em que a empresa de energéticos comprou todo o clube.

As promessas são grandes. Mas a principal dúvida, agora, é se a gestão das SAFs, uma vez concluídos os negócios, será de fato uma evolução em relação aos modelos anteriores.

O futebol brasileiro tem grande dependência de ganhos com direitos de televisão e transferências de jogadores, mas pouco com marketing e programas mais estratégicos de parceria com torcedores. Os problemas desse modelo de negócio, que já era questionado, ficaram escancarados na pandemia, com estádios fechados, jogos cancelados e receita de TV em queda.

A receita dos times na série A caiu na casa dos 20% com a pandemia, de 6,5 bilhões em 2019 para 5,10 bilhões de reais em 2020, segundo levantamento da SportsValue com base nos balanços dos clubes. Times que já estavam em condições financeiras ruins viram as contas ainda mais deterioradas.

Uma grande expectativa é que, nos clubes que optarem por vendas de fatias majoritárias em suas SAFs, os investidores externos ajudem a trazer recursos e capacidade de gestão, de modo a monetizar a paixão do torcedor brasileiro e, no fim, retornar com títulos e bom desempenho em campo.

“A torcida quer títulos, quer ver o time disputando e sendo protagonista e não um mero coadjuvante nos campeonatos. Se entrarem investidores importantes nos grandes clubes do Brasil, daremos um salto de qualidade muito grande”, diz Marcel Figer, CEO do grupo Figer, de gestão esportiva.

Para a torcida do Cruzeiro, qualquer ação que reduza a distância para o rival Atlético, campeão brasileiro em 2021, já será uma vitória.

(Colaborou Lucas Amorim)

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Fonte: Exame

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