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Márcio de Freitas: Moro e a síndrome do tempo perdido

Por Márcio de Freitas*

O ex-juiz Sérgio Moro se colocou nesta semana à disposição do Podemos para ser um possível candidato à presidência da República em 2022. Certo personagem de Jô Soares tinha a resposta perfeita para certas discussões, mas apenas consegui dizê-la muito tempo depois de o fato ter ocorrido. E soltava as falas em lugares completamente inapropriados. Moro parece oferecer uma resposta à eleição de 2018, quatro anos depois.

Na última eleição presidencial, a agenda do país priorizava o enfrentamento da corrupção. Parlamentares, empresários e o ex-presidente Lula amargaram temporadas atrás das grades — a grande maioria por decisão do próprio Moro. Ele era uma espécie de herói nacional por esse feito, afinal nunca antes na história desse país um ex-presidente fora preso.

Seus feitos jurídicos desmancharam-se no ar por decisão do Supremo Tribunal Federal. Sua decisão de se tornar ministro do governo Jair Bolsonaro, eleito com Lula na cadeia, desfez sua imagem de juiz isento. Moro se lança agora nesta empreitada para resgatar o debate perdido. Tem um público ainda interessado nesta agenda. E, por isso, pode ter um desempenho inicial acima de dois dígitos nas próximas pesquisas. A conferir. Se consistente, ainda mais dúvidas a se checar no futuro.

Se for candidato, Moro estará retirando votos de Bolsonaro, hoje um desafeto. Afinal, eles circulam na mesma faixa ideológica. A agenda de 2018 era a mesma, e o discurso contra a corrupção deve ser objeto de uma rachadinha entre ambos.

Só que, hoje, o eleitorado está mais preocupado em se libertar da inflação, da fome, do desempenho e da ausência de perspectivas para o futuro. Não há até agora candidato com proposta para o país, com planos, programas, projetos. É esse vazio da agenda a ser preenchido. A Lava Jato virou uma questão de tribunais, mas sempre em sentido contrário ao que o ex-juiz e seus procuradores de estimação planejaram. Os políticos estão fortes como sempre, superando as denúncias e voltando a controlar as emendas e os debates no Congresso.

Moro tem o desafio de convencer o eleitor que a sua novela, inspiração até para minisséries, é programação digna de ser vista de novo. Se não ampliar seu leque de discurso, ele corre sério risco de ficar falando sozinho, ou só ser ouvido pela fonoaudióloga.

*Márcio de Freitas é analista político da FSB Comunicação

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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Fonte: Exame

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