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Disco de vinil? É meio caro, mas o som é espetacular

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Londres – Escondida em um complexo de coworking da moda na região oeste de Londres, logo depois da cantina e de uma startup de processamento de pagamentos, essa talvez seja uma das gravadoras mais antiquadas do planeta.

A Electric Recording Co., no mercado desde 2012, é especializada no relançamento meticuloso de discos de música clássica e jazz dos anos 1950 e 60. O catálogo da gravadora inclui gravações históricas de músicos como Wilhelm Furtwängler, John Coltrane e Thelonious Monk, além de artistas menos famosos, mas adorados por colecionadores, como a violinista Johanna Martzy.

Mas o que realmente destaca a Electric Recording das outras é seu método – uma filosofia de produção mais parecida com a fabricação de chocolate gourmet em pequenos lotes do que com a prensagem da maioria dos discos de vinil.

Os álbuns, embalados a mão e lançados em tiragens de 300 cópias ou menos, custam entre US$ 400 e US$ 600 por LP e são feitos com equipamentos restaurados, incluindo amplificadores valvulados e gravadores de fita mono que não eram usados havia mais de meio século. O objetivo é garantir a restauração fiel do que o fundador do selo, Pete Hutchison, vê como a era de ouro da fabricação de discos. Até mesmo as capas dos discos, impressas individualmente em máquinas de tipografia, demonstram uma devoção fanática a um velho ofício.

“Tudo começou com o desejo de recriar o original, mas sem cair em um pastiche. Para evitar o pastiche, tivemos de refazer tudo como antigamente”, disse Hutchison.

A atenção da Electric Recording aos detalhes e o estilo delicado de Hutchison como engenheiro de som na masterização de gravações antigas deram à gravadora um status de culto entre os colecionadores – mas também atraíram críticas ferozes dos rivais, que acreditam que essa abordagem é desnecessariamente cara e preciosista demais.

Hutchison, de 53 anos, afirma que essas críticas são exemplos do tribalismo no mundo dos audiófilos. Até mesmo a palavra “audiófilo”, para ele, não passa de uma estratégia vazia de marketing.

“Os audiófilos ouvem com os ouvidos, não com o coração. Não é isso que fazemos”, observou Hutchison.

Mas, afinal, eles fazem o quê?

“Tentamos criar algo que seja oposto ao genérico, digamos assim. O que fazemos com essas velhas gravações é, basicamente, adotar as tecnologias antigas e reproduzir tudo o que era feito na época, em vez de simplificar”, explicou.

Pete Hutchison, fundador Electric Recording Co. ,inspecionando um disco em sua fábrica em LondresTom Jamieson/The New York Times

Em grande medida, o ressurgimento do vinil durante a última década foi alimentado pelos relançamentos. Mas nenhum selo dedicado a relançamentos foi tão longe quanto a Electric Recording.

Em 2009, Hutchison comprou duas gigantescas máquinas de metal cinzento que ele usa para masterizar os álbuns – um deck de fita da Lyrec e uma mesa de corte com amplificadores Ortofon, ambas de 1965 –, e gastou mais de US$ 150 mil em sua restauração ao longo de três anos. O empresário investiu milhares de dólares em melhorias como a substituição da fiação de cobre por prata, que, de acordo com Hutchison, dá um nível de pureza mais elevado ao sinal de áudio.

As máquinas permitem que Hutchison exclua qualquer traço das tecnologias que entraram no processo de gravação desde quando os Beatles ainda usavam cabelo tigelinha. Isso significa não apenas qualquer coisa digital ou computadorizada, mas também qualquer elemento transistorizado, uma das partes mais básicas dos circuitos de áudio há décadas; em vez disso, os amplificadores são alimentados por válvulas.

“Aqui, gostamos mesmo é das válvulas”, disse Hutchison durante um passeio pelo estúdio.

Masterizar um disco de vinil inclui “cortar” os sulcos em um disco de laca, uma arte obscura em que pequenos ajustes podem ter um efeito enorme. Ao contrário da maioria dos engenheiros de som, Hutchison costuma masterizar os discos em volumes baixos – frequentemente até mais baixos que os originais – para destacar as características naturais dos instrumentos.

Essas opções são muito subjetivas, mas, para testar a abordagem de Hutchison, visitei Michael Fremer, editor da revista “Stereophile” e ferrenho defensor dos discos de vinil, em sua casa em Nova Jersey. Ouvimos alguns LPs da Electric Recording e os comparamos a prensagens da mesma gravação feitas por outras empresas, no complexo aparelho de testes de Fremer.

Costumo duvidar quando falam da superioridade do vinil; no entanto, ao ouvir um dos álbuns da Electric Recording com solos de violino de Bach tocados por Martzy, fiquei estonteado com a clareza e a beleza do som. Em comparação com outras prensagens, a versão da Electric Recording mostrava detalhes vívidos e viscerais que davam a impressão muito convincente de que um ser humano estava diante de mim, tocando o violino com seu arco.

“A forma como estão recriando esses discos é mágica”, maravilhou-se Fremer.

Hutchison é um candidato surpreendente ao cargo de mantenedor da velha arte da alta-fidelidade. Nos anos 1990, era um nome importante da cena techno britânica, com o selo Peacefrog. O sucesso da gravadora no início dos anos 2000, com o folk minimalista de José González, ajudou a financiar a obsessão que deu origem à Electric Recording.

A conversão de Hutchison se deu depois que ele herdou a coleção de discos clássicos do pai, que morreu em 1998. Colecionador de rock e jazz, Hutchison ficou abismado com o som dos antigos originais e encontrou reedições mais recentes que eram insatisfatórias. Ele descobriu que a distribuidora da Peacefrog, a EMI, era dona de muitos de seus títulos prediletos. Seria possível recriar as coisas exatamente como eram no passado?

Depois de restaurar as máquinas, a Electric Recording colocou à venda seus primeiros três álbuns no fim de 2012: conjuntos com os solos de Bach interpretados por Martzy, lançados originalmente em meados dos anos 1950.

Hutchison concluiu que a fidelidade só seria completa se também valesse para a embalagem do disco. A impressão tipográfica aumentou consideravelmente os custos de produção e alguns dos projetos do selo beiram o absurdo.

Ao fazer “Mozart à Paris”, por exemplo, uma cópia quase perfeita de uma edição de luxo de 1956, Hutchison passou meses visitando lojas de aviamentos em Londres até encontrar os fios de seda corretos para fazer uma corda decorativa. A caixa com sete discos é o produto mais caro do catálogo da Electric Recording, custando cerca de US$ 3.400 – e é um dos poucos títulos do selo que não estão esgotados.

Hutchison afirma que esse esforço é parte da devoção da gravadora à ideia de autenticidade. Mas tudo isso tem um preço. Os métodos de fabricação e a atenção ao controle de qualidade dedicada a cada disco impedem qualquer tipo de economia de escala. Portanto, a Electric Recording não teria uma redução de custos se produzisse tiragens maiores. Isso tudo serve de resposta negativa para a pergunta mais ouvida por Hutchison: por que você não fabrica mais discos e diminui o preço de venda?

“Mozart à Paris”, em edição que imita com perfeição lançamento de 1956: fabricado pela The Electric Recording Co.Tom Jamieson/The New York Times

“Provavelmente, fazemos os discos mais caros do mundo e, ao mesmo tempo, temos o menor lucro”, contou Hutchison.

Os preços da Electric Recording fazem com que os produtores de discos de luxo cocem a cabeça. Chad Kassem, cuja empresa Acoustic Sounds, em Salina, no Kansas, é um dos maiores impérios do disco de vinil no mundo, afirmou que admira o trabalho de Hutchison.

“Tiro meu chapéu para qualquer empresa que faça tudo que está ao seu alcance para produzir as coisas da melhor maneira possível”, disse Kassem.

Entretanto, ele afirmou que se orgulha do trabalho da Acoustic Sounds, que, assim como a Electric Recording, produz as masters a partir das fitas originais e se dedica intensamente para capturar os detalhes do design original, mas vende a maioria dos discos por cerca de US$ 35. Perguntei a Kassem qual a diferença entre uma reedição de US$ 35 e uma de US$ 500.

Ele pensou por um segundo e respondeu: “US$ 465.”

Ainda assim, o mercado recebeu a Electric Recording de braços abertos. Mesmo em meio à pandemia do coronavírus, afirmou Hutchison, os discos são vendidos a uma velocidade impressionante.

A próxima fronteira para a Electric Recording é o rock. Hutchison conseguiu recentemente a permissão para relançar o clássico da psicodelia “Forever Changes”, lançado em 1967 pela banda Love, da Califórnia, e contou que as fitas originais têm um som mais cru, que a maioria dos fãs jamais pôde ouvir.

Porém Hutchison parece ter mais orgulho do trabalho que o selo fez com gravações de música erudita que parecem vir de uma era distante. Ele mostrou um disco de dez polegadas da pianista francesa Yvonne Lefébure interpretando Bach, lançado originalmente em 1955. A Electric Recording recriou cuidadosamente a lombada do disco, sua proteção interna de algodão e a capa de couro com letras gravadas com folha de ouro.

“É um lindo artefato e um disco excepcional”, elogiou Hutchison, com olhar apaixonado.

Fonte: Exame

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