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Caso Evergrande: por que o mercado imobiliário está na mira de Xi Jinping

O grupo de construção civil chinês Evergrande está chacoalhando os mercados nesta segunda-feira, 20, com a possibilidade de calote de uma dívida de 300 bilhões de dólares que ficou grande demais e centenas de empreendimentos ainda a construir.

Mas para além de um episódio isolado, o caso pode se tornar um definidor dos planos do governo chinês e do presidente Xi Jinping para o mercado imobiliário. A ação da Evergrande chegou a cair quase 20% durante o pregão de hoje, terminando o dia com baixa de 10%, sem que Pequim apresentasse medidas para conter a crise de uma de suas maiores empresas.

Para quem acompanha o mercado chinês e as movimentações recentes, o setor já estava entre as frentes de alerta, depois de o governo Xi interferir nos últimos meses com regulações diversas, sobretudo no setor de tecnologia.

No mercado imobiliário, com o preço dos imóveis mais do que dobrando mesmo em cidades pequenas da China, além das já caras metrópoles, o governo vinha tentando colocar freio nos preços com menos crédito e restrições às compras.

A queda de hoje não diz respeito à interferência do governo diretamente, e é resultado de dívidas que já se mostravam um problema desde o ano passado. Mas agora, é o silêncio em Pequim sobre a Evergrande, e não o excesso de interferência, que tem chamado atenção.

Com a dívida galopante da empresa e o temor de que a maior construtora do país não consiga arcar com suas obrigações — deixando centenas de prédios por construir e bancos chineses sem receber — a principal questão no mercado global é por que o governo chinês ainda não sinalizou algum tipo de medida para conter a crise.

A Evergrande tem 1.300 empreendimentos em construção em mais de 280 cidades da China, e o temor é de um efeito dominó sobre todo o setor imobiliário chinês.

“Embora a maioria das pessoas não espere que a Evergrande entre em colapso de repente, o silêncio e a falta de ações importantes por parte dos formuladores de políticas [em Pequim] está deixando todos em pânico”, disse Ding Shuang, economista-chefe da Grande China e do Norte da Ásia da Standard Chartered Plc em Hong Kong, em análise publicada pela Bloomberg.

Um executivo ouvido pela EXAME aponta que o silêncio até agora pode ser uma “puxada de tapete” do governo Xi Jinping sobre a Evergrande e todo o setor, sobretudo caso o governo em Pequim não apresente medidas de socorro.

Ao longo do último ano, o governo chinês interferiu especialmente em setores de tecnologia (como games, redes sociais e transporte compartilhado) e fintechs, além dos grupos de educação.

Mas a aposta a respeito do mercado imobiliário era de que, com os preços em alta e o setor visto como estratégico, não demoraria até que as construções também entrassem na mira do governo de forma mais abrangente.

“Muitas pessoas no mercado imobiliário acham que seu tempo de glória acabou”, disse à EXAME em junho Tony ­Saich, professor da Universidade Harvard e autor do livro One Hundred Years of the Chinese Communist Party (“100 anos do Partido Comunista Chinês”, em tradução livre), lançado neste ano em meio ao centenário do partido.

“Não significa que não podem mais fazer dinheiro, mas o período do boom pode ter passado, e o Estado está se colocando de novo nesse mercado.”

Para Saich, a questão da participação estatal no mercado imobiliário — e de potenciais controles que podem ser aplicados neste setor — já era há meses tão relevante quanto as regulações sobre o mercado de tecnologia e finanças, como o cancelamento da oferta inicial de ações da Ant, do grupo Alibaba, do bilionário Jack Ma.

“Historicamente, se algo parece crescer a ponto de se tornar muito influente, o partido talvez tente trazê-lo ‘de volta para dentro”, diz Saich.

Xi Jinping, que está no poder na China desde 2012, tem tido estilo de governo mais centralizador do que antecessores, o que envolve desde o aperto do cerco a Hong Kong até as medidas na direção de empresas privadas.

Analistas apontam Xi como se aproximando mais do governo Mao Tse-tung, que governou a China após a tomada comunista em 1949, mas é amplamente criticado por violações de direitos humanos e uma política que deixou milhões de chineses em insegurança alimentar.

As reformas econômicas do ex-líder Deng Xiaoping nos anos 1970 são vistas como tendo recolocado o país na rota de desenvolvimento, mas tem crescido, dentro do Partido Comunista e sob a liderança de Xi, a leitura de que alguns setores ficaram “independentes demais”.

Como outras gigantes chinesas que se tornaram líderes globais na última década, a Evergrande, criada em 1996, é retrato da ascensão do mercado imobiliário do país. Mesmo após a queda desta segunda-feira, a empresa supera 30 bilhões de dólares em valor de mercado.

Entre 2016 e 2017, a ação da companhia subiu mais de 2.000%, patamar em que estava até começar a cair vertiginosamente ao menos desde o começo deste ano.

A empresa também entrou para a lista das 500 maiores do mundo da revista americana Forbes, e ao lado de nomes como Alibaba e Tencent, havia virado um dos símbolos do crescimento do capitalismo chinês.

O dinheiro era tanto que o grupo comprou em 2010 até um time de futebol, o Guangzhou Evergrande F.C (hoje somente Guangzhou, após a Evergrande deixar de ser o sócio majoritário).

O mercado imobiliário chinês afeta indiretamente um quarto do PIB do país, e responde diretamente por quase 10% da economia.

Obra da Evergrande, que está construindo estádio do time de futebol Guangzhou, no qual tem participação: são mais de 1.000 obras em centenas de cidades chinesasNOEL CELIS/AFP/Getty Images

No caso específico da Evergrande, a dívida já dava sinais de estar saindo do controle ao menos desde o ano passado.

Os papeis da empresa caíram quase 85% nos últimos 12 meses. Mas a situação explodiu de vez nesta segunda-feira, com queda de 10,24% na bolsa de Hong Kong, onde a empresa está listada, e uma corrida às vendas nos mercados globais.

Além dos investidores diretos da Evergrande, há risco de que o caso contamine o setor financeiro em Pequim, se espalhando para finanças mundiais em meio à grande dimensão da economia chinesa atualmente, a segunda maior do mundo.

Os mais pessimistas lembram ainda da crise financeira de 2008, que começou com uma bolha no mercado imobiliário – embora a maior parte dos analistas, até agora, aponte que as situações são diferentes e que um eventual colapso do setor imobiliário chinês ou quebra de bancos no país não teria o mesmo efeito dominó global.

Independentemente do desfecho da história da Evergrande, o dilema chinês segue latente: a necessidade de ter grandes empresas globais que reforcem o papel da China como potência, mas o risco, para Pequim, de ter um setor privado forte demais.

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Fonte: Exame

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