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Caixa pretende rentabilizar os clientes que não têm conta bancária

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O ano de 2020 ia entrar para a história da Caixa Econômica Federal. Faltava pouco para o presidente do banco, Pedro Guimarães, e os demais diretores fazerem as malas para apresentar a unidade de seguros, Caixa Seguradora, para os investidores. O objetivo era captar em torno de 10 bilhões de reais com abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) da empresa. Mas então o mundo parou por causa do novo coronavírus, e os planos de acessar o mercado de capitais foram postergados. Naquele momento, a Caixa deu uma guinada para o lado social – que nunca deixou de existir, é claro – e se tornou o principal instrumento na transferência de renda emergencial para os mais afetados pela crise econômica. Até esta sexta-feira, 30,7 milhões de brasileiros já foram cadastrados para receber o auxílio de 600 reais, que pode ser pago a profissionais autônomos, informais e trabalhadores em regime de trabalho intermitente inativo (veja aqui quem pode receber o benefício).

A Caixa também anunciou um pacote de 111 bilhões de reais “de dinheiro novo”, nas palavras de Guimarães, para financiar hospitais Santas Casas, comprar carteiras de crédito e oferecer linhas para pequenas e médias empresas e para o setor agrícola. Além disso, o banco permitiu pausar o pagamento de até três parcelas do financiamento imobiliário. “Do ponto de vista de resultado, é natural que tenhamos provisões de crédito maiores do que no ano passado. Seria até estranho se não tivesse, assim como seria estranho não ter uma redução no crescimento na base de carteira de crédito”, afirma o executivo, em entrevista exclusiva à EXAME. “A Caixa tem esse componente fundamental de prestação de serviço social – e vamos promover cada vez mais -, mas sem perder o foco da rentabilidade.”

Como? Parte da resposta está na própria estratégia. Com os trabalhadores autônomos, informais e MEIs, além dos beneficiários do Bolsa Família que hoje não têm conta em banco e vão se cadastrar nas chamadas poupanças sociais digitais para receber o auxílio de 600 reais. Essas contas não terão qualquer custos, mas, passada a fase mais aguda da crise, os clientes poderão solicitar à Caixa novos produtos, como cartões, seguros e até crédito. “É isso que vamos tentar buscar – não nesse momento, que é momento de crise – mas daqui a dois, três ou seis meses com os novos clientes. Para isso, a Caixa espera fidelizar, criar uma relação muito importante com quem está precisando da gente neste momento”, explica Guimarães.

Perguntada sobre os impactos financeiros das medidas anunciadas, a Caixa, por meio de sua assessoria de imprensa, disse que os estudos financeiros são de caráter estratégico, não sendo possível disponibilizá-los. “Contudo, esclarecemos que as medidas adotadas visam apoiar os clientes no cenário atual, bem como atenuar os efeitos da crise e possível aumento de inadimplência”, diz, em nota.

Bruno Lima, analista de renda variável da exame research, faz coro que ainda não é possível mensurar os impactos para o balanço financeiro da Caixa. Entretanto, afirma que o banco está em uma situação confortável financeiramente. Ele destaca que o ROE Recorrente (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) da Caixa é de 17,5% e o índice de Basileia é de 19%. “As medidas emergenciais tiveram o respaldo do Banco Central, que determinou, por exemplo, a redução da alíquota de compulsório bancário de 31% para 25%, que liberou 49 bilhões de reais de recursos no sistema financeiro, permitindo assim a expansão de crédito no país”, afirma.

Além da questão financeira, o analista destaca a Caixa, por ser um banco público, exerce um papel de norteador dentro do sistema financeiro brasileiro. “Como no Brasil esse sistema é ainda muito concentrado entre os cinco maiores bancos do país [Caixa, BB, Bradesco, Itaú e Santander] nestas horas eles se sentam e resolvem, já que existe um cruzamento de risco de crédito.” Por fim, Bruno Lima destaca que o processo de digitalização pode fazer com que a Caixa se torne ainda mais eficiente em relação a despesas, já que é possível que no longo prazo reduza número de agências bancárias. 

 

Confira abaixo principais trechos da entrevista exclusiva com Pedro Guimarães, presidente da Caixa.

EXAME: No início do ano, a estratégia da Caixa para 2020 era vender ativos importantes. Como se deu a virada de chave para incrementar a promoção social nesse cenário de pandemia? 

Todos os movimentos que fizemos em 2019 acabaram nos preparando para o momento atual. Temos liquidez elevada, um balanço sólido e uma base de capital sólida. Foram decisões acertadas de venda de ativos e de negociações estratégicas. Um exemplo foi a venda de 100% das ações da Petrobras que faziam parte do nosso patrimônio líquido. Vendemos cada papel por 30,25 reais, e é só dar uma olhada na cotação atual para ver que preservamos cerca de 5 bilhões de reais para o banco. Mas não foi por isso que vendemos. É que não faz sentido o maior banco do Brasil e da América Latina ter como parte de seu patrimônio liquido ações de uma empresa não financeira. Isso por si só já era uma coisa irracional. E fizemos a venda por preço muito bom. Ao longo de 2019, saímos de carteiras de crédito de grandes empresas, porque não é foco da atual gestão. Nosso foco é financiamento imobiliário, crédito consignado – que é o crédito mais seguro dentro do chapéu de crédito pessoal – e linha de crédito para saneamento, seja de estados e municípios, seja de estatais. Esses são os grandes pilares e foram preservados. É claro que a Caixa também tem o papel de instituição social e vai reforçar esse lado principalmente agora com a crise do coronavírus. Por isso, anunciou operações que somam 111 bilhões de reais de dinheiro novo. Isso é uma demonstração de que o banco está sadio, com governança sólida, o que permite que a gente ajude a sociedade de maneira eficiente. 

EXAME: Mas os planos de IPO foram engavetados ou postergados?

A estratégia tem de variar de acordo com o mercado. Já tínhamos até feito o primeiro filing do IPO [da Caixa Seguradora]. Todas as negociações que já anunciamos vão gerar ao redor de 10 bilhões de reais para o banco. Seja em cartões, seja em seguros tudo continua andando. O que mudou foi o timing de abertura de capital. Mas mantemos a mesma estratégia, só que não faremos nenhuma operação de mercado de capitais sem que o mercado esteja precificando corretamente os ativos da Caixa. Não sei quanto tempo vai demorar, mas isso significa que, neste momento, o nosso foco são as politicas sociais e manter a solidez da nossa base de relacionamento com clientes e da nossa base de crédito.

EXAME: Poderia explicar melhor a concessão dos 111 bilhões de reais?

São linhas que têm muita solidez. É o caso das operações para Santa Casas, que têm uma garantia implícita que é o recebimento do SUS. Além disso, são operações de compra de carteiras diversas (seja de adquirentes, de debêntures secundárias, sejam carteiras de consignado, todas têm solidez e estão em segmentos que queremos estar) e para capital de giro em especial para empresas menores. Para isso, teremos uma parceria estratégica com Sebrae que pode nos ajudar com conhecimento. Afinal, a Caixa não tem tanto conhecimento como o Sebrae com  micro e pequenas empresas, que respondem por cerca de 30 bilhões de reais da nossa carteira. Isso não representa nem 5% da nossa carteira total de cerca de 700 bilhões de reais. Mas não vamos prover capital e, daqui três a seis meses, perder esse espaço. Queremos criar uma relação que perdure. O objetivo é ter relação com pequenos empresários para no médio prazo vender outros produtos, como seguros e cartões. Essa é maneira de rentabilizar a base.

EXAME: Mas dá para ter rentabilidade e prestar um serviço social?

A Caixa tem esse componente fundamental de prestação de serviço social – e vamos promover cada vez mais – sem perder o foco da rentabilidade. Isso é possível por questões de governança corporativa. Quando a gente assumiu, a Caixa estava há quase três anos sem uma auditoria completa no seu balanço. Existiam problemas passados, antes da nova gestão, que faziam com que o auditor não se sentisse confortável em assinar o balanço da Caixa. Então, a mudança de direcionamento e medidas de governança corporativa reforçaram a confiança na Caixa. Isso permitiu que tivéssemos resultado recorde financeiro em 2019, mesmo com redução de taxa de juros. Começamos com a redução do cheque especial há mais de seis meses, porque não faz sentido cobrar 13% a 14% ao mês em um país com 3% a 4% de inflação e de juros ao ano. Reduzimos até chegar o atual patamar de 2,9% ao mês. Fizemos o mesmo movimento com o parcelado no cartão de crédito. Quando se reduz a taxa de juros nessa magnitude você tem dois impactos relevantes: o primeiro é uma redução da inadimplência – porque uma coisa é pagar 14% ao mês e outra é pagar 2,9% – e o segundo é o aumento da carteira de crédito, porque é natural que atraia novos clientes. Lançamos também a linha de crédito imobiliário corrigida pelo IPCA, sem falar que reduzimos as taxas em especial da TR, de modo que a Caixa tem as menores taxas do mercado. E ao mesmo tempo tivemos um resultado e um lucro que nunca tínhamos tido antes. Isso demonstra matematicamente que é possível reduzir taxas e ser rentável.

EXAME: O senhor disse que esse movimento começou há mais tempo, quando havia uma expectativa de crescimento para o país. As projeções de lucro e de resultado da Caixa em 2020 foram mantidas?

Do ponto de vista de resultado, é natural que tenhamos provisões de crédito maiores do que no ano passado. Seria até muito estranho que não tivesse, assim como seria estranho não ter uma redução no crescimento na base de carteira de crédito. Mas a Caixa tem um nível de provisionamento muito superior ao que precisa, um nível de Basileia muito superior. Tínhamos resultados, antes da crise, muito fortes. Então, a questão é simples. Todos os movimentos que fizemos foram em linha com solidez financeira para ajudar a população. Nenhum movimento que realizamos foi sem demonstração matemática de que a Caixa estava ganhando dinheiro. Esses 111 bilhões de reais que estamos ofertando terão rentabilidade e solidez. A crise é relativamente recente e tem uma questão operacional que é chegar às pequenas e médias empresas, daí a parceria com o Sebrae.

EXAME: A Caixa também vai ter um papel importante na bancarização dos brasileiros?

As medidas aceleram a bancarização que é um foco nosso. O avanço tecnológico permite que várias pessoas tenham acesso a benefícios sociais que só antes teriam indo às agências. É um novo grupo de clientes que vão ter acesso a banco. Esperamos continuar crescendo nos próximos dez anos nessa base mais desassistida, que é mais esparsa. Isso será possível porque a Caixa reforçou seu lado tecnológico. Logo depois que a pausa nas parcelas do crédito imobiliário, 1,2 milhão de clientes – dos cerca de 5 milhoes que nós temos – aderiram pelo aplicativo. Isso demonstra que a Caixa tem capacidade de prestar serviço não só pela rede, que é inigualável: temos 4.000 agências, 13.000 lotéricas e 8.000 correspondentes exclusivos, mas também via canais digitais, que não deixa de ser uma novidade. Se lembrarmos de 2017 e 2018, quando houve o primeiro pagamento do FGTS, o banco praticamente parou. Tinha que abrir as agências horas antes e aos fins de semana, e no fim foram 24 milhões de pagamentos. No ano passado, nós pagamos mais do que o dobro e não precisamos abrir antes nem aos fins de semana.

EXAME: Como rentabilizar esses novos clientes?

Oferecendo seguros, cartões, fundos de investimento. É isso que vamos tentar buscar – não nesse momento, que é momento de crise – mas daqui a dois, três ou seis meses com os novos clientes. Para isso, a Caixa espera fidelizar, criar uma relação muito importante com quem está precisando da gente neste momento.

Fonte: Exame

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