Política
Renúncia de Adilson Honorato expõe a desigualdade na distribuição do fundo eleitoral do PSD em Rondônia
POR EDUARDO KOPANAKIS
A decisão de Adilson Honorato de renunciar à candidatura a deputado federal pelo PSD coloca luz sobre uma discussão que o partido não pode simplesmente ignorar, a forma como os recursos do Fundo Eleitoral foram distribuídos entre seus próprios candidatos.
Os números são eloquentes. Dos R$ 11,1 milhões destinados pela Direção Nacional do PSD às campanhas de Rondônia, R$ 5 milhões foram destinados ao candidato ao Governo, Adailton Fúria, e outros R$ 1,5 milhão à sua esposa, Joliane Fúria, candidata à Câmara dos Deputados. Somados, os dois receberam R$ 6,5 milhões, ou cerca de 59% de todo o recurso destinado pela direção nacional às candidaturas do partido no estado.
E a discrepância fica ainda mais evidente quando se olha para os demais candidatos. Adilson Honorato recebeu R$ 100 mil, mesmo valor destinado a Daniel Pittbull, Fernando Vilas Blueray e Junior Lopes Becão. Enquanto isso, outras candidaturas receberam R$ 600 mil, R$ 800 mil ou R$ 1 milhão. Joliane Fúria, com R$ 1,5 milhão, recebeu 15 vezes o valor destinado a Adilson.
Um partido pode ter critérios próprios para distribuir seus recursos. Mas quando as diferenças são tão grandes, é inevitável que candidatos questionem se todos entraram na disputa com as mesmas condições e com o mesmo nível de apoio da legenda.
Adilson Honorato, ao decidir deixar a disputa, faz uma escolha que merece ser compreendida dentro desse contexto. A renúncia representa uma ruptura com uma candidatura que havia sido oficialmente homologada pelo PSD e que vinha sendo apresentada como parte da nominata do partido para a Câmara Federal.
O episódio também coloca o presidente estadual do PSD, o governador Marcos Rocha, diante de uma discussão política importante. Não basta ocupar a presidência de uma legenda. A liderança partidária também precisa ser capaz de ouvir seus candidatos, administrar conflitos, defender equilíbrio interno e explicar decisões que inevitavelmente geram insatisfação.
É preciso deixar claro, os dados disponíveis indicam que os recursos foram transferidos pela Direção Nacional do PSD, portanto não seria correto atribuir automaticamente ao governador Marcos Rocha a decisão individual sobre cada repasse. Mas, como presidente estadual da legenda, seu papel político na condução do partido e na relação com os candidatos naturalmente entra no debate.
O que fica para o eleitor e para os próprios filiados é uma pergunta simples: qual foi o critério utilizado para definir quem receberia milhões e quem teria de disputar uma eleição nacional com uma parcela muito menor dos recursos?
Porque não basta apresentar uma nominata com nove candidatos e dizer que todos terão espaço. É preciso criar condições minimamente coerentes para que essa disputa aconteça.
A renúncia de Adilson Honorato, nesse cenário, deixa de ser apenas uma decisão individual. Ela se transforma em um sinal político de insatisfação com a forma como a disputa foi conduzida dentro da legenda.
E o PSD de Rondônia agora terá de conviver com a pergunta que a própria distribuição dos recursos colocou na mesa: por que alguns receberam milhões, enquanto outros receberam apenas uma pequena parcela?
Essa resposta não deveria ser dada apenas aos candidatos. Deveria ser dada também à sociedade.
Porque o Fundo Eleitoral é dinheiro público. E quando milhões de reais são distribuídos para financiar candidaturas, transparência, critérios e igualdade de tratamento deixam de ser detalhes internos de um partido e passam a interessar a todos os eleitores.
