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Qualidade do ar chega a nível péssimo e capital acorda encoberta por fumaça
O Rio Negro amanheceu cinza. Na manhã desta quinta-feira, 17 de setembro, quem atravessou a ponte Rio Negro ou parou na orla de Manaus não viu, do outro lado da água, o contorno da floresta que costuma fechar o horizonte viu uma parede de fumaça baixa, densa, que apagou a cidade por horas e transformou o ar em algo que se sente antes de se medir.
A medição veio pouco depois. Por volta das 7h30, todos os pontos de monitoramento da capital amazonense registravam algum nível de poluição, e na Compensa, na Zona Oeste, o índice de material particulado chegou a 129,5 microgramas por metro cúbico concentração classificada como péssima pela escala oficial de qualidade do ar. Para efeito de comparação, a mesma escala considera o ar bom quando a concentração de partículas fica entre 0 e 25 µg/m³. Manaus estava, naquela hora, cinco vezes acima disso.
A fumaça era visível desde as 5h em diferentes pontos da capital. Moradores da Compensa, do Parque Dez, da Cachoeirinha, do Morro da Liberdade e da Nossa Senhora da Graça relatavam cheiro forte de queima no ar aquele odor adocicado e amargo ao mesmo tempo, que entra pela janela fechada e fica na roupa, no cabelo, na garganta de quem precisa esperar ônibus à beira de uma avenida sem sombra. Em bairros como Parque Dez, Nossa Senhora da Graça, Morro da Liberdade, Cachoeirinha e Aparecida, os índices variavam entre 85,7 e 108,6 µg/m³, faixa considerada muito ruim. No Aleixo e no Armando Mendes, os sensores marcavam 61,2 e 54,8 µg/m³, classificados como ruins. Não havia, até o fechamento desta reportagem, informação oficial sobre a origem da nuvem de fumaça que encobriu a cidade.
O que a manhã de quinta fez foi trazer para dentro da maior cidade da Amazônia um fenômeno que, setembro após setembro, vem ocupando a calha do rio e o interior do estado: a queima, deliberada ou fugitiva, que avança sobre áreas de floresta e capoeira na estação seca, quando a chuva dá trégua e o fogo encontra material pronto para consumir. Manaus costuma funcionar como uma ilha de ar relativamente limpo no meio dessa paisagem — raramente os picos de poluição que atingem Porto Velho, Rio Branco ou Humaitá chegam a encobrir por completo o Rio Negro. A manhã desta quinta mostrou a ilha cercada.
A física do que acontece é conhecida dos monitoramentos que acompanham a estação seca amazônica. As queimadas liberam material particulado fino — partículas pequenas o bastante para atravessar as defesas naturais das vias respiratórias e alcançar os pulmões — que viaja centenas de quilômetros carregado pelos ventos de leste, e se concentra sobre as cidades sobretudo nas primeiras horas da manhã, quando uma inversão térmica mantém o ar frio preso junto ao solo e impede que a fumaça se disperse. É por isso que o pior da medição veio às 7h30, no horário em que a cidade inteira está na rua: pais levando crianças à escola, feirantes montando barracas, trabalhadores da Zona Franca cruzando a cidade em motos e ônibus abertos, todos respirando, sem escolha, o ar mais contaminado do dia.
Manaus, é preciso dizer, não é espectadora da estação seca é vizinha dela. O estado do Amazonas acumula, nos últimos anos, recordes sucessivos de focos de calor no período de julho a outubro, e as cidades do interior, de Lábrea a Tabatinga, convivem com índices de poluição que figuram entre os piores do país em plena Amazônia, a maior floresta tropical do planeta. Que a fumaça tenha chegado à capital com essa intensidade diz menos sobre um evento excepcional e mais sobre a extensão do que já está queimando ao redor — o fogo não respeita o limite entre o município e o que a cidade considera distante.
Até a publicação desta reportagem, os órgãos de monitoramento e a prefeitura de Manaus não haviam divulgado a origem da fumaça nem alertas formais de saúde para a população. A recomendação que a literatura de saúde pública repete a cada setembro evitar exercício ao ar livre nas primeiras horas, manter crianças e idosos em ambientes ventilados, procurar atendimento diante de falta de ar vale, nesta quinta, para os bairros onde os sensores marcaram vermelho: a Compensa e todo o oeste, o Parque Dez, a Cachoeirinha, o Morro da Liberdade, a Aparecida.
No fim da manhã, o sol conseguiu furar a camada em alguns pontos da cidade, e o Rio Negro voltou a aparecer na cor que tem sempre nesta época, preta e quieta, refletindo um céu que não era mais azul, mas também não era mais cinza. Uma trégua curta. Os sensores, esses, continuaram medindo.
