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Rondônia, segunda, 09 de março de 2026.


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Vlado Taneski, o repórter que noticiava os próprios assassinatos

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Por mais de vinte anos, o nome de Vlado Taneski foi sinônimo de credibilidade na pequena cidade de Kičevo, na Macedônia. Veterano das redações dos jornais Nova Makedonija e Utrinski Vesnik, Taneski era o que se costuma chamar de “jornalista de fôlego”: discreto, culto e possuidor de um texto envolvente que capturava as nuances do cotidiano local.

No entanto, por trás da fachada de profissional exemplar, escondia-se um dos predadores mais atípicos da história moderna, que utilizava as páginas dos jornais para imortalizar seus próprios crimes.

A trajetória de Taneski começou a ganhar contornos sombrios entre o final de 2004 e meados de 2008. Durante esse período, a pacata Kičevo foi assolada pelo desaparecimento de mulheres idosas, todas com um perfil muito específico: eram faxineiras, de origem humilde e com idade próxima à da falecida mãe do jornalista.

A primeira vítima confirmada foi Mitra Simjanoska, de 64 anos. Seu corpo foi encontrado meses após o desaparecimento, envolto em plásticos, com sinais de tortura extrema e abuso sexual. Taneski, exercendo seu ofício, cobriu o caso com um entusiasmo que, na época, foi interpretado como dedicação profissional. Seus artigos não apenas informavam; eles narravam a dor das famílias e o horror da violência com uma riqueza de detalhes que fascinava os leitores.

O declínio do “repórter perfeito” começou quando sua “intuição” passou a desafiar a lógica investigativa. Nos casos subsequentes, os assassinatos de Ljubica Licoska (56) e Zivana Temelkoska (65), Taneski demonstrou saber demais. Em seus textos, ele mencionava o tipo exato de fio telefônico usado para estrangular as vítimas antes mesmo de a polícia liberar tais informações ou realizar a perícia técnica completa.

A precisão dos detalhes, que inicialmente lhe rendeu elogios dos editores, virou sua sentença de morte profissional. Investigadores, ao relerem suas colunas, perceberam que o jornalista descrevia a cena do crime com a perspectiva de quem não apenas a viu, mas a arquitetou. “Lemos as histórias dele e isso nos deixou desconfiados. Ele sabia demais para um repórter”, declarou Ivo Kotevski, porta-voz da polícia na época.

A análise posterior revelou um homem profundamente traumatizado. O suicídio de seu pai em 1990 e uma relação marcada por ressentimentos com a mãe conservadora parecem ter sido os gatilhos para sua fúria. Curiosamente, todas as suas vítimas conheciam sua mãe pessoalmente.

Em junho de 2008, a ciência deu o veredito final: o DNA de Taneski foi encontrado em amostras coletadas nos corpos das vítimas. Ao revistarem sua casa, policiais encontraram pertences das mulheres e uma vasta coleção de material pornográfico violento. A prisão chocou seus colegas de redação, que o viam como um homem “gentil e de fala mansa”.

O desfecho do caso foi tão bizarro quanto os crimes. Em 22 de junho de 2008, pouco após ser detido e antes de ser interrogado formalmente por todos os homicídios, Vlado Taneski foi encontrado morto em sua cela. Ele havia se suicidado de forma inusitada: afogado em um balde de água.

A morte de Taneski impediu um julgamento que prometia dissecar a mente de um homem que transformou o jornalismo em uma ferramenta de narcisismo psicopático. Ele não queria apenas matar; ele queria que o mundo lesse sobre seus feitos, sentindo o prazer mórbido de ver sua assinatura logo acima do relato das atrocidades que ele mesmo cometera nas sombras.

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