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Rondônia, quinta, 05 de março de 2026.


Cotidiano

Maus-tratos em creches: como identificar sinais em crianças pequenas

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Identificar situações de violência ou maus-tratos no ambiente escolar pode ser um desafio, especialmente na primeira infância, quando muitas crianças ainda estão desenvolvendo a linguagem e nem sempre conseguem explicar com clareza o que estão sentindo ou vivendo no dia a dia da creche ou da escola. Nessa fase, comportamentos, reações emocionais e mudanças na rotina costumam ser as principais formas de expressão da criança.

Por isso, alterações no comportamento podem funcionar como um dos primeiros sinais de alerta para pais e responsáveis. Resistência para ir à escola, choro intenso na hora da separação ou mudanças no sono, por exemplo, podem indicar que algo não está bem e merece atenção.

Segundo a neuropsicopedagoga e especialista em comportamento infantil Silvia Kelly Bosi, esses sinais muitas vezes aparecem de forma sutil e precisam ser observados com cuidado ao longo do tempo.

“Na prática clínica, os sinais nem sempre são explícitos. Muitas vezes, o que aparece são mudanças comportamentais: regressão, como voltar a fazer xixi na roupa, resistência intensa para ir à escola, choro excessivo na separação, alterações no sono, irritabilidade ou isolamento. Em crianças pequenas, o comportamento fala antes das palavras”, explica.

Para a especialista, é importante lembrar que a escola deve ser um ambiente de segurança e acolhimento para o desenvolvimento infantil. Proteger a infância é uma responsabilidade coletiva, e ouvir as crianças, mesmo quando ainda não conseguem se expressar com clareza, é um compromisso ético de toda a sociedade.

Como o sofrimento pode aparecer na primeira infância

Na primeira infância, é um período em que a criança é pequena e ainda está aprendendo a falar e lidar com as próprias emoções. Nessa fase, o sofrimento nem sempre aparece de forma direta e muitas vezes se manifesta por meio de reações físicas ou mudanças no comportamento do dia a dia.

Crises de choro sem causa aparente, medo intenso de determinados adultos, dor de barriga recorrente antes de ir à escola ou aumento de comportamentos agressivos podem indicar que a criança está enfrentando algum tipo de estresse emocional. Em outros casos, o efeito pode ser diferente, com apatia, retraimento ou perda de interesse em atividades que antes faziam parte da rotina.

Outro sinal que merece atenção pode surgir durante as brincadeiras. “Muitas vezes vemos alterações no brincar. A criança pode reproduzir cenas de grito, punição ou exclusão durante as brincadeiras simbólicas”, afirma a especialista.

Quando mudanças de comportamento viram alerta

Nem toda mudança de comportamento indica necessariamente um problema. Segundo Silvia Bosi, oscilações fazem parte do desenvolvimento infantil e podem surgir em diferentes fases.

O sinal de alerta aparece quando essas mudanças se tornam persistentes, causam sofrimento ou começam a interferir na rotina da criança.

Evitar a escola de forma recorrente, apresentar medo intenso ou demonstrar alterações emocionais que não existiam antes são exemplos de situações que merecem atenção. “Não significa concluir imediatamente que há violência com esses sinais, mas significa que algo precisa ser compreendido”, explica.

Conflitos fazem parte do desenvolvimento, mas precisam de mediação

Na educação infantil, conflitos entre crianças são considerados parte do processo de aprendizagem social. Nesse período, os pequenos ainda estão aprendendo habilidades básicas de convivência, como compartilhar brinquedos, esperar a própria vez e lidar com frustrações.

A diferença está na forma como essas situações são conduzidas pelos adultos. Conflitos pontuais costumam ser episódios isolados e mediados por educadores ou cuidadores.

Já situações que podem causar danos emocionais costumam envolver repetição e falta de mediação adequada. Isso pode ocorrer quando uma criança é alvo constante de exclusão ou quando atitudes de um adulto acabam expondo ou constrangendo o aluno diante dos colegas.

Violência também pode ser psicológica

Quando se fala em violência no ambiente escolar, muitas pessoas pensam apenas em agressões físicas. No entanto, práticas que não deixam marcas visíveis também podem causar impactos emocionais importantes.

“Violência não é apenas física. Humilhações públicas, gritos constantes, ameaças, punições desproporcionais, isolamento como forma de castigo, exposição da criança ao ridículo e invalidação emocional são formas de violência psicológica”, afirma Silvia Kelly Bosi.

Segundo a especialista, a maneira como adultos exercem autoridade no ambiente escolar influencia diretamente a construção da autoestima e da segurança emocional das crianças.

Impactos no desenvolvimento

Experiências repetidas de violência ou exposição a ambientes hostis podem afetar diferentes aspectos do desenvolvimento infantil. Entre as possíveis consequências estão insegurança, retraimento, agressividade e dificuldade em estabelecer vínculos de confiança.

Em situações mais graves ou persistentes, também podem surgir impactos no aprendizado e na forma como a criança percebe a própria capacidade.

O que os pais devem fazer diante de suspeitas

Ao perceber sinais de que algo pode não estar bem, o primeiro passo é acolher a criança sem pressioná-la ou induzir respostas.

“Em seguida, é importante buscar diálogo com a instituição e solicitar esclarecimentos. Caso a resposta não seja satisfatória ou haja indícios consistentes de violação, é legítimo buscar orientação de um profissional da área do desenvolvimento infantil ou dos órgãos competentes”, orienta a especialista.

Para Silvia Kelly Bosi, a escola deve sempre ser um espaço de proteção, cuidado e desenvolvimento. “A primeira infância é uma fase de intensa construção emocional. Relações seguras, previsíveis e respeitosas são fundamentais para o desenvolvimento saudável. Autoridade não é sinônimo de autoritarismo”, afirma.

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